Todos os dias religiosamente Joana acordava o esposo às sete horas da manhã. Desempenhava essa função durante doze anos, mas há aproximadamente cinco anos, pouco antes dos gêmeos nascerem, o casal deixara de ser conjugues amantes e esfriaram as relações de afeto comum, dedicando-se apenas a ser pai e mãe.
Nem lembravam que acima de tudo eram homem e mulher, perdendo aquele romantismo e interesse dos primeiros anos de casamento. E desde então parecem dois estranhos que deitam e dormem na mesma cama.
O casal que aos olhos dos vizinhos era "modelo de felicidade", na verdade seguia um script onde cada um apenas desempenhava suas funções triviais: Ele dividindo-se entre dois trabalhos, a hipoteca da casa, e o futebol com os amigos no domingo. Ela dividindo-se entre cuidar dos filhos, da casa, ir à igreja e acordar o marido.
Eles realmente estavam distantes e Joana sentia como se houvesse um oceano os separando naquela cama que fora com tanto afinco preparada: Perfumara os lençóis de linho egípcio, escolhera a melhor camisola, soltara os cabelos...e ao olhar-se no espelho nem tinha a feiúra como cúmplice para culpá-la pela falta de interesse do marido.
Porque Joana, de fato, era uma mulher muito bonita: madura, de trinta e seis anos de idade, com pele lisa, alva, com traços faciais delicados, olhos castanhos como um fim de tarde, lábios de um carmim natural e um corpo esquio com aquela elegância natural da mulher que já passou dos trinta. Evitava usar decotes pois suas mamas por si só já tinham personalidade forte, a cintura fina bem marcada funcionava como uma fronteira onde os seus peitos, fartos e duros, tentavam dominar o território.
E se por um lado o diabo parecia habitar naqueles seios, por outro sua personalidade dócil, séria e olhar de anjo conseguiam exorcizar todos os demônios dos olhares dos homens que porventura a observavam com olhares maliciosos.
Entretanto o marido aparentava ser muito mais velho do que realmente era. Exibia uma discreta cálvice frontal, emoldurada em um rosto redondo sério, mas de uma seriedade diferente à de Joana, era uma seriedade insípida, inexpressível. Estava acima do peso e vivia envolto em dietas mal sucedidas e preocupado demais com dividas e trabalho. Mas aos olhos da esposa o infeliz era "o pai dos seus filhos" e isso o tornava o homem mais bonito do mundo.
E toda noite, após colocar as crianças para dormir, deitava-se ao lado do homem mais bonito do mundo na expectativa de um toque de carinho. Porém a essa altura o infeliz já estava entregue ao sono e a única sensação de partilha que desfrutava era ouvir durante a noite inteira o ronco alto do marido.
E na madrugada vangloriava-se, dizendo baixinho a si mesma como era forte. Como se suportar àquela situação a atribuísse status de "mártir matrimonial" e degustava o sentimento de missão cumprida por mais um dia. Ora bolas, as crianças estavam bem, a casa estava limpa o jantar estava saborosíssimo...o que mais esperar da vida? E reconfortada tentava dormir, mesmo sem sono, pois pela manhã tinha que acordar o marido.
E este era o único momento de contato fisico entre o casal: acordá-lo pela manhã.
Já que o condenado trabalhava durante doze horas cada dia em um hospital. À noite, exausto, jogava-se na cama e nenhum alarme, grito, sinal poderia despertá-lo pela manhã. Mas bastava um simples toque, ou no máximo umas três sacudidas e o pobre despertava com um pulo desesperado.
Já que o condenado trabalhava durante doze horas cada dia em um hospital. À noite, exausto, jogava-se na cama e nenhum alarme, grito, sinal poderia despertá-lo pela manhã. Mas bastava um simples toque, ou no máximo umas três sacudidas e o pobre despertava com um pulo desesperado.
Sendo assim, todas manhãs, Joana sentia seu coração disparar e suas mãos suarem segundos antes dessa tarefa. E tentava não pensar como aquilo era indiferente para ele. Mas para ela tocar no pijama do marido, era aproveitar um dos poucos momentos de contato entre o casal.
Suava frio ao repousar a palma da mão em sua pele, apertar um pedaço do seu músculo e movimentar seu corpo inicialmente suave contemplando cada segundo daquela atividade como se aquilo fosse o ato mais libidinoso possível e pouco depois com movimentos frenéticos chegava ao clímax até o infeliz de sobressalto pular da cama, calçar os chinelos e dirigir-se ao banho sem dizer uma palavra... nem sequer um obrigado.
E enquanto o esposo tomava banho aproveitava para preparar-lhe o café da manhã. Encarando tal tarefa como se fosse um ritual incumbido somente à sua pessoa. Sentia-se como um alquimista dosando a quantidade exata de pó, àgua e açucar para deixar a bebida no ponto que o marido gosta.
E desempenhava essa tarefa com uma satisfação única. Frequentemente nesse momento recordava de uma música do Chico , "Com Açucar e Com Afeto", e inevitavelmente seus olhos marejavam, mas o vapor da àgua em ebulição ao coar o café disfarçava seu pranto e logo o aroma do café consolaria seus desabores proporcionando um misto de dor e prazer.
E como um sádico aquele aroma de café a excitava todas as manhãs...
Além dessa sensação sadomasoquista, Joana também nutria um sentimento de gratidão para com o bule de café. Pois prepará-lo para o marido era como misturar uma poção mágica, milagrosa que os aproximavam por alguns instantes e também tinha um sentimento de amizade com o jogo de xicaras de porcelana no qual servia o marido.
Essa mania de atribuir sentimentos à coisas inanimadas, como ter gratidão ao bulé de café, cultivar amizade com xícaras de porcelana talvez explique o amor que Joana tinha pelo infeliz...
E esse amor a tornara uma escrava doméstica que servia o esposo inanimado com afinco. Todas as manhãs, seguia esse ritual de redenção do seu matrimônio, que todos chamam de "preparo do café" e após sentava-se à mesa na sua frente e aguardava ansiosamente o momento dele tomar o primeiro gole da xícara de café.
Os segundos que antecediam essa atividade funcionavam como um mecanismo de recompensa de prazer para Joana. Como se estivesse a acariciar o ponto exato em seu corpo capaz de lhe fazer sentir o mais intenso de todos os prazeres.
Em breve o rosto, antes inexpressivo, da criatura inanimada que seu marido havia se tornado com o passar dos anos, iria se transformar em um misto de gozo, gratidão e alegria enquanto olhava bem fundo nos olhos da esposa. Não dizia nenhuma palavra, e naquele momento nem era necessário! Todas as palavras, poemas, sonetos gritos seriam desnecessários...bastava olhar, apenas olhar a cara de satisfação dele era como um orgasmo matinal para ela.
Já ouvira falar em orgasmos múltiplos na televisão e lera em algumas revistas femininas sobre o assunto e podia afirmar com certeza que aquela visão pela manhã era tão poderosa, ou mais, que um orgasmo múltiplo. E dia após dia gozava assim: em silêncio, em paz, sem que ele soubesse.
Eis que num fatídico dia Joana acordou o marido, levantou-se e preparou o café com o mesmo ritual de redenção: o sadomasoquismo com o aroma do café, o sentimento de gratidão pelo bule e a sensação de amizade com as xícaras de porcelana como de costume a encontraram. Joana serviu o café ao marido, sentou-se à sua frente e ficou na expectativa da vinda de orgasmos múltiplos fantásticos.
Mas subitamente o marido infeliz, sem dizer uma palavra levantou-se, foi até entrada da casa, abriu a porta, abaixou-se e pegou um embrulho na soleira da porta. Voltou com o embrulho que estava em um saco plástico. Sentou-se à mesa, rasgou o embrulho e retirou o jornal. Abriu aquela folha enorme do caderno de economia que cobriu sua cara inteira e sem desgrudar os olhos da página puxou a xícara para si e ainda com toda cara escondida por aquele jornal imenso tomou o seu cafésem que Joana pudesse observar o seu rosto...e disse apenas uma frase: "Fiz assinatura desse jornal".
Nesse momento o semblante de Joana transfigurou-se, a esposa outrora tão dócil e angelical, sentiu nascer em seu intimo mais um sentimento por objetos inanimados: a partir daquele dia Joana passou a odiar os jornais impressos, sobretudo o caderno de economia.
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