quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Que Horas Ela Volta? E O Invisível Contrato da Segregação Social




“Estréia de novo filme brasileiro convida-nos a mergulhar em diversos âmbitos das relações humanas. E dá um banho de qualidade e talento como há muito tempo não víamos em nossos filmes”.

O cinema nacional há muito tempo não trazia às telas uma história que dosasse tão bem momentos engraçados e dramáticos no mesmo filme, juntamente com atuações primorosas. Sobretudo com o trabalho de Regina Casé, interpretando uma empregada domestica nordestina sem deixa-la caricata, e ainda apresentando minúcias nos gestos, expressões e sutilezas ricamente construídas que deram características bem reais à personagem.

Regina Case dá vida à Val, empregada domestica que há mais de dez anos deixou a filha pequena em Recife, para trabalhar e morar na casa dos patrões em um bairro rico de São Paulo, também criou o filho dos patrões com muito carinho. Val funciona como uma ancora de salvação aos integrantes dessa família, onde cada membro parece estar alheio entre si; atendendo aos anseios emocionais e pessoais dos patrões e do filho, e realizando as tarefas domesticas com dedicação. Assim, Val segue seus dias. 
Mas, devido à prova de vestibular, sua filha Jessica precisará ficar alguns dias na casa dos patrões. E sua estadia na casa é o estopim que permite a implosão da dinâmica familiar nas relações pessoais dentro de casa.

As relações entre patrão e empregado com a chegada da filha, aos poucos vai ganhando outros tons, na tentativa de separar e delimitar a tênue linha que separa as relações pessoais das relações de trabalho. Porque é comum diversos patrões utilizarem a celebre frase que a patroa de Valdete utilizou na chegada da filha à casa: “Gostamos muito da sua mãe, é como se ela fosse da família!”. Porém, no decorrer do filme iremos constatar que “...como se fosse da família” não é “ser da família”.

O modelo de convivência desenhado pelos patrões, em acordo com a atitude de resignação e dedicação da empregada, manteve-se harmonioso, em uma espécie de contrato imaginário assinado por ambos os lados. Até que alguns desses protocolos velados de convívio são postos à prova. Afinal é comum perceber que mesmo um empregado, que é “como se fosse da família”, tem um quarto precário nos fundos da casa, seus alimentos são de qualidade inferior, faz as suas refeições em uma mesa separada, e seus anseios são sempre deixados em segundo plano.

Há nas entrelinhas do filme, de maneira sutil, o pensamento de Marx, segundo o qual, as relações de produção são originarias do relacionamento entre os homens. E a partir desse sistema de produção dá-se a divisão da sociedade em duas classes distintas: a dos proprietários e a dos não proprietários dos meios de produção. E no atual contexto das relações humanas, exposta no filme, a empregada domestica Val funciona como um símbolo da segregação social e da distinção das classes. Mas o encanto da personagem vem justamente da falta de consciência desse fato. E ganha nossa empatia através de sua atitude servil, e ao mesmo tempo, amável, no empenho em vender a sua única propriedade: a sua força de trabalho. 

O filme também instiga importante reflexão sobre a família e sobre o relacionamento entre pais e filhos. Na primeira noite em que precisaram dividir o mesmo quartinho precário de empregada, logo de cara houve conflito, com resgate catártico importante ao relacionamento da mãe e da filha. O que nos leva à compreensão de que onde há convivência, há conflito. E são exatamente esses embates, que buscam a resolução de conflitos internos, que faz compreendermos nós mesmos e também o outro. Fazendo com que o amor se personifique justamente nesse ato de dividir o mesmo espaço.

Que Horas Ela Volta? É uma comédia de cunho social que diverte e emociona, rara por aqui nos últimos tempos, e veio fazer-nos olhar para dentro de nossas casas, para dentro de nós mesmos e  do outro.




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