“Estréia
de novo filme brasileiro convida-nos a mergulhar em diversos âmbitos das
relações humanas. E dá um banho de qualidade e talento como há muito tempo não
víamos em nossos filmes”.
O
cinema nacional há muito tempo não trazia às telas uma história que dosasse tão
bem momentos engraçados e dramáticos no mesmo filme, juntamente com atuações
primorosas. Sobretudo com o trabalho de Regina Casé, interpretando uma
empregada domestica nordestina sem deixa-la caricata, e ainda apresentando
minúcias nos gestos, expressões e sutilezas ricamente construídas que deram
características bem reais à personagem.
Regina
Case dá vida à Val, empregada domestica que há mais de dez anos deixou a filha
pequena em Recife, para trabalhar e morar na casa dos patrões em um bairro rico
de São Paulo, também criou o filho dos patrões com muito carinho. Val funciona
como uma ancora de salvação aos integrantes dessa família, onde cada membro
parece estar alheio entre si; atendendo aos anseios emocionais e pessoais dos
patrões e do filho, e realizando as tarefas domesticas com dedicação. Assim,
Val segue seus dias.
Mas, devido à prova de vestibular, sua filha Jessica
precisará ficar alguns dias na casa dos patrões. E sua estadia na casa é o
estopim que permite a implosão da dinâmica familiar nas relações pessoais
dentro de casa.
As
relações entre patrão e empregado com a chegada da filha, aos poucos vai
ganhando outros tons, na tentativa de separar e delimitar a tênue linha que
separa as relações pessoais das relações de trabalho. Porque é comum diversos
patrões utilizarem a celebre frase que a patroa de Valdete utilizou na chegada
da filha à casa: “Gostamos muito da sua mãe, é como se ela fosse da família!”.
Porém, no decorrer do filme iremos constatar que “...como se fosse da família”
não é “ser da família”.
O
modelo de convivência desenhado pelos patrões, em acordo com a atitude de
resignação e dedicação da empregada, manteve-se harmonioso, em uma espécie de
contrato imaginário assinado por ambos os lados. Até que alguns desses
protocolos velados de convívio são postos à prova. Afinal é comum perceber que mesmo
um empregado, que é “como se fosse da família”, tem um quarto precário nos
fundos da casa, seus alimentos são de qualidade inferior, faz as suas refeições
em uma mesa separada, e seus anseios são sempre deixados em segundo plano.
Há
nas entrelinhas do filme, de maneira sutil, o pensamento de Marx, segundo o
qual, as relações de produção são originarias do relacionamento entre os
homens. E a partir desse sistema de produção dá-se a divisão da sociedade em
duas classes distintas: a dos proprietários e a dos não proprietários dos meios
de produção. E no atual contexto das relações humanas, exposta no filme, a
empregada domestica Val funciona como um símbolo da segregação social e da
distinção das classes. Mas o encanto da personagem vem justamente da falta de
consciência desse fato. E ganha nossa empatia através de sua atitude servil, e
ao mesmo tempo, amável, no empenho em vender a sua única propriedade: a sua
força de trabalho.
O
filme também instiga importante reflexão sobre a família e sobre o
relacionamento entre pais e filhos. Na primeira noite em que precisaram dividir
o mesmo quartinho precário de empregada, logo de cara houve conflito, com
resgate catártico importante ao relacionamento da mãe e da filha. O que nos
leva à compreensão de que onde há convivência, há conflito. E são exatamente
esses embates, que buscam a resolução de conflitos internos, que faz
compreendermos nós mesmos e também o outro. Fazendo com que o amor se personifique
justamente nesse ato de dividir o mesmo espaço.
Que
Horas Ela Volta? É uma comédia de cunho social que diverte e emociona, rara por
aqui nos últimos tempos, e veio fazer-nos olhar para dentro de nossas casas,
para dentro de nós mesmos e do outro.


Nenhum comentário:
Postar um comentário