quinta-feira, 12 de novembro de 2015

HOMEM PÁSSARO


Vôo Com Pássaros por Viti Grosman


Quando estou
Onde necessariamente preciso estar
À vontade - livre
Pés descalços na terra - feito menino 
Com o vento de encontro 
À pele exposta ao sol macio e
O único som - canto de passarinho

Quando Estou
Onde necessariamente preciso estar   
Sem necessidade de fugas 
É quando tranquilizo a mente 
Essa causadora de conflitos 
E liberto a fera dos labirintos
Da inconstância do pensar           

E assim...quando estou
Onde necessariamente preciso estar
Feito passarinho - num vôo sozinho
Pra bem longe da multidão
Em qualquer arvore vou pousar 
Fazer o meu ninho e repousar

E minha satisfação é vista com espanto
Aquele ser hitech pedante de antes
Virou passarinho - em corpo de menino
E não precisa tanto 
De tudo aquilo 
Que o dinheiro pode comprar 


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

DESPETALAR-TE NO MEU PEITO



Espalha-se à vontade pelo quarto

Feito névoa da madrugada
Toma conta do espaço  
Envolve-me por todos os cantos

Acima: a cabeça envolta em viagens 
Aceita ancorar-se em meu braço
Abaixo: ao alcance do toque 
Eis que encontro...
A íntima parte alheia

Renuncias outras paisagens 
Para repousar seu cansaço 
Sobre um leito forrado 
Com lençol estampado
De flores vermelhas

E...
Como flor que fora cortada
Exalando o perfume
Que ficara impregnado
Na pele alva enevoada de sabonete

E...
Como flor que fora cortada
Dum pé de rama luzente
A sonhar mil quimeras
Na cama onde deitas

E corre em meu pensamento
Por um momento oportuno
Tal qual a fome da aurora
Ao dissolver toda névoa e
Embalsamar a lua cheia

Eis que sou jardineiro faminto
Com um desejo doente
De regar sua pétala mais escondida
Sorver seus odores e
Despetalar-te em meu peito






quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Que Horas Ela Volta? E O Invisível Contrato da Segregação Social




“Estréia de novo filme brasileiro convida-nos a mergulhar em diversos âmbitos das relações humanas. E dá um banho de qualidade e talento como há muito tempo não víamos em nossos filmes”.

O cinema nacional há muito tempo não trazia às telas uma história que dosasse tão bem momentos engraçados e dramáticos no mesmo filme, juntamente com atuações primorosas. Sobretudo com o trabalho de Regina Casé, interpretando uma empregada domestica nordestina sem deixa-la caricata, e ainda apresentando minúcias nos gestos, expressões e sutilezas ricamente construídas que deram características bem reais à personagem.

Regina Case dá vida à Val, empregada domestica que há mais de dez anos deixou a filha pequena em Recife, para trabalhar e morar na casa dos patrões em um bairro rico de São Paulo, também criou o filho dos patrões com muito carinho. Val funciona como uma ancora de salvação aos integrantes dessa família, onde cada membro parece estar alheio entre si; atendendo aos anseios emocionais e pessoais dos patrões e do filho, e realizando as tarefas domesticas com dedicação. Assim, Val segue seus dias. 
Mas, devido à prova de vestibular, sua filha Jessica precisará ficar alguns dias na casa dos patrões. E sua estadia na casa é o estopim que permite a implosão da dinâmica familiar nas relações pessoais dentro de casa.

As relações entre patrão e empregado com a chegada da filha, aos poucos vai ganhando outros tons, na tentativa de separar e delimitar a tênue linha que separa as relações pessoais das relações de trabalho. Porque é comum diversos patrões utilizarem a celebre frase que a patroa de Valdete utilizou na chegada da filha à casa: “Gostamos muito da sua mãe, é como se ela fosse da família!”. Porém, no decorrer do filme iremos constatar que “...como se fosse da família” não é “ser da família”.

O modelo de convivência desenhado pelos patrões, em acordo com a atitude de resignação e dedicação da empregada, manteve-se harmonioso, em uma espécie de contrato imaginário assinado por ambos os lados. Até que alguns desses protocolos velados de convívio são postos à prova. Afinal é comum perceber que mesmo um empregado, que é “como se fosse da família”, tem um quarto precário nos fundos da casa, seus alimentos são de qualidade inferior, faz as suas refeições em uma mesa separada, e seus anseios são sempre deixados em segundo plano.

Há nas entrelinhas do filme, de maneira sutil, o pensamento de Marx, segundo o qual, as relações de produção são originarias do relacionamento entre os homens. E a partir desse sistema de produção dá-se a divisão da sociedade em duas classes distintas: a dos proprietários e a dos não proprietários dos meios de produção. E no atual contexto das relações humanas, exposta no filme, a empregada domestica Val funciona como um símbolo da segregação social e da distinção das classes. Mas o encanto da personagem vem justamente da falta de consciência desse fato. E ganha nossa empatia através de sua atitude servil, e ao mesmo tempo, amável, no empenho em vender a sua única propriedade: a sua força de trabalho. 

O filme também instiga importante reflexão sobre a família e sobre o relacionamento entre pais e filhos. Na primeira noite em que precisaram dividir o mesmo quartinho precário de empregada, logo de cara houve conflito, com resgate catártico importante ao relacionamento da mãe e da filha. O que nos leva à compreensão de que onde há convivência, há conflito. E são exatamente esses embates, que buscam a resolução de conflitos internos, que faz compreendermos nós mesmos e também o outro. Fazendo com que o amor se personifique justamente nesse ato de dividir o mesmo espaço.

Que Horas Ela Volta? É uma comédia de cunho social que diverte e emociona, rara por aqui nos últimos tempos, e veio fazer-nos olhar para dentro de nossas casas, para dentro de nós mesmos e  do outro.




segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A RESPOSTA QUE O GOOGLE NÃO OFERECE


(René Magritte) 


Com o avanço tecnológico e com a velocidade assustadora da divulgação de noticias na internet, também veio a falsa sensação de saber mais. Mesmo que seja um conhecimento raso e sem grandes reflexões acerca do assunto. No momento ficamos com a sensação de termos nossa mente impregnada de informações a todo tempo sobre diversos assuntos.

Reflexo causado em decorrência da explosão de mídias digitais, que permitiram uma interação maior. Possibilitada principalmente pela internet, que tem no Google um oceano de informações disponíveis a qualquer navegante que, na ânsia de tentar compreender tudo que o cerca, se perde no meio do caminho e torna-se uma pessoa focada em um cientificismo exagerado, que a afasta de sua intima essência e instiga um processo de desumanização em sua relação com o outro e com o mundo. Deixando de conhecer a si mesmo.

Verdade e conhecimento sempre foram preocupações da filosofia, desde sua origem, até os dias atuais. Porém, antes de se esforçar para conhecer de forma clara e racional a natureza, o ser humano e o universo que pertencemos, a filosofia incentiva o "Conhece-te a ti mesmo". Frase relacionada ao filosofo Sócrates, que encontra-se inscrita na entrada do Templo de Apolo (Deus da Luz e da Verdade) na Grécia.

E para absorver o real sentido da frase "Conhece-te a ti mesmo" faz-se necessário contextualizá-la, uma vez que, os filósofos anteriores a Sócrates buscavam a compreensão da procedência do mundo e das coisas a sua volta, tentando encontrar o fundamento de seus mecanismos.

Foi a partir da filosofia de Sócrates, que houve mudança no elemento de pesquisa, direcionando seus questionamentos e reflexões ao homem em si. Na busca, não só do conhecimento do mundo, mas sobretudo, na busca do auto conhecimento como representação da Verdade.

Mas o auto conhecimento não é tarefa fácil, pois não se encontra de forma didática em livros, não está presente em livros de auto ajuda, e não é um ato unicamente intelectual. O processo de conhecer a si mesmo exige mergulhos internos profundos, muitas vezes em águas turvas, em uma espécie de viagem psicológica ininterrupta.

Só quando a pessoa conhece a si mesma e tem contato com sua essência, passa a compreender seus anseios e enxerga o mundo vasto, do qual faz parte, em sua totalidade. Independente de todo conhecimento técnico acumulado sobre coisas, ou conceitos metafísicos e religiosos. Porque encontra a sua verdade e adquire um significado na vida. E conseqüentemente, com uma vida significativa, encontrará a plena felicidade.

O que nos faz lembrar a concepção de felicidade segundo a filosofia estóica, importante escola filosófica originária do período pós Socrático, que propôs a necessidade do homem viver de acordo com a lei natural. Para os estóicos, o objetivo da vida é a obtenção de felicidade. E ainda de acordo com esses pensadores, busca-se a felicidade ao viver em conformidade com a natureza; E alguma coisa só vive de acordo com a natureza quando exercita com excelência aquilo que foi projetado para fazer. Esta sim é a felicidade plena, chamada por esses estudiosos de “eudaimonia”.

Mas só saberá o que foi projetado para fazer após conhecer a si mesmo!


Então, ficamos com essa difícil lição de casa há tempos proposta por esses sábios filósofos: Conhecer a nós mesmos para encontrarmos a nossa Eudaimonia, a nossa felicidade.  Por enquanto, a única certeza que tenho é de que no Google não encontraremos a resposta.



domingo, 16 de agosto de 2015

O EXERCÍCIO DAS PEQUENAS COISAS





Nas manhãs quentes
De horas apressadas
Pessoas geladas passam
Sem tempo de mais nada

Por entre outras pessoas 
Que também passam
Pelos mesmos endereços e
Talvez morem na mesma quadra

Enfileiram-se em caixas eletrônicos, escadas
cruzam-se na frente 
Do mesmo banco da praça
Sem tempo de notar quem passa

Pessoas diferentes, frente a frente
Na hora do rush  na mesma caixa metálica
Saem vestidas com ternos e jeans
Adornadas com laços e gravatas

Mas seus sonhos ficam trancados
Anestesiados pela pressa do tempo
Esquecidos em algum canto
Empoeirado da casa...

Ficam à espera de um raio solar
Bater à janela e transpassar a vidraça
Projetando no chão formas mágicas
Que deslizam, se unem 

E perfeitamente nos sonhos encaixa
Formando pares e dançando tango
Pelos cantos da casa
Enquanto as pessoas geladas

Seguem em solos cambaleantes
Desviando-se nas ruas,
Nas escadas e
Nas praças.










quarta-feira, 17 de junho de 2015

CONFIDÊNCIA





A aparente paz que infrinjo
Ilude mais a mim
Do que qualquer outro alguém

É a paz das pradarias áridas 

Não é a paz dos vivos campos
...como aparenta ser

Tal qual cemitério ajardinado

Sepúlcro e inabalável
Flores de plástico d'um dissimulado viver

E no meu interior nada se altera

Tudo está da mesma forma
Como há tempos estava

Campo desértico

Pássaro engaiolado
Cidade sitiada

Porém na minha mente

Entre tempestades de sinápses elétricas
Uma nova explosão está prestes a acontecer

E pressinto em mim 

No fundo da minh'alma
Que um terremoto  r
                                  u
                                       i
                                           r
                                               á    minha calma

                                           



                                                       a

                                                   s
                                               a
Um tornado soprará minha  c       


                  

                                                                   
                              ...e um tsunami lavará o meu ser







sábado, 2 de maio de 2015

ODE À VIDA




Feito

Semente em solo fértil 
Que germina, aprofunda raízes 
Retira da terra essenciais minérios
Numa sagrada semeadura 
Regida pelas leis do universo
Do admirável parto da terra
Nasce caule que em direção ao sol 
...cresce

Feito

Óvulo fecundado
Mágica concepção de vida
Som de um coração  
Que bate dentro da barriga
Ossos que se formam e
Dentro do útero crescem
Como pode isso?

São mágicas da vida

Que a todo momento
Diante de nossos olhos incrédulos
Acontecem...

Dai graças a tais feitos divinos

Reconcilia-te com todas as coisas
Do céu e da terra

Assim como semente que

Desenvolve e dá bons frutos 
Em agradecimento ao seu solo fértil






sexta-feira, 24 de abril de 2015

SINAL DE ALERTA




Um sinal de alerta

Mais uma noite inteira às claras

Em meio a turvos pensamentos
Envolto no velho sentimento de falta
Entre tantas coisas novas que comprei
...espalhadas pela casa

Vem aqui

Agora eu preciso ouvir uma história com final feliz
Agora eu preciso te contar 
O que nunca tive coragem de dizer: 
- eu preciso que alguém receba meu sinal de alerta!

Porque nesses dias 

Em que pareço estar bem
E nesses dias em que sorrio
E pareço estar bem
...eu preciso de você
...eu estou sentindo sua falta

Nesses dias 

Em que pareço estar bem
Nesses dias em que sorrio 
E pareço estar bem
...eu preciso tanto de você

Um sinal de alerta


Muitas pessoas dizem 

Que o tempo cicatriza todas marcas
Mas aqui dentro não muda nada!
As vezes o tempo não cumpre sua palavra? 

Vem aqui 

eu quero ter mais de você nos meus dias
eu quero voltar para casa contigo
Talvez você possa receber meu sinal de alerta:

Então me abraça forte e

Diz que não há mais tempo entre nós
Me abraça e diz que não há mais tempo entre nós





segunda-feira, 9 de março de 2015

À DERIVA





...pra terminar
Me encontro aqui
Procurando peças de um quebra cabeças
Cheio de desencontros
Passando a limpo um enredo
De acertos e enganos
E observando... 
Pela janela dos dias, um mero viajante
Desde o primeiro sopro de vida
Em que soube-me prisioneiro do tempo
Desde o primeiro momento em que percebi
Que penso, penso, penso
...e isso às vezes é um castigo
Porque a vida não é coisa a se pensar
A vida é apenas isto: poeira estelar
Uma viagem sem destino 
Nesse grande mar on line
Onde lanço poesia
Como se fosse mensagem em garrafa
Mas mareado em pensamentos 
...sobre a vida
Continuo à deriva
Sem ajuda, sem resgate 
Sobrevivo ao sabor dos ventos
Engulo ilusões e sonhos e
Vomito medos e verdades







sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

CONSELHO



Era uma mensagem 
No meio do praça
Miragem da manhã
Com a manha de gata 
E olhos de vidraça
Jogou ao vento a solução:
Por que esse descontentamento no peito?
Por que essa insatisfação?
Pra viver do melhor jeito 
Pratique a Negação!




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

LEI DA CONSERVAÇÃO DA ENERGIA




O amor obedece as leis da física
É uma energia da natureza
Não se cria do nada
Da noite pro dia
Não acaba sem deixar vestígio
Dele nada se perde 
Tudo renasce e se transforma

O amor é uma representação 

Da Lei de Conservação da Energia
Mas não há grandeza cientifica 
Capaz de indicá-lo 

A tensão que ele cria 
...em Volts não é medida
E a sua potência 
...Watts ou ampéres não podem mensurar

O amor obedece as leis da física

Está na natureza
E sua lei Lavoisier reconhece:
Na natureza nada se cria
Nada se perde
Tudo se transforma

E o amor, minha querida...

É Energia!
Não acaba assim da noite pro dia
Apenas...
Transforma-se em versos de poesia
Apenas...
Transforma-se em desespero e saudade


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

SILÊNCIOS



Quantas vezes mais 
Irei preencher o espaço causado 
Pelas palavras não ditas
Com silêncios incômodos 
E sorrisos perdidos?


Eu digo a mim mesmo
Que são apenas impressões falsas
É melhor deixar o dito pelo não dito
Esse nó na garganta logo passa
Desata com um grito no vazio


E após um curto período 
A única dúvida que resta:
Para onde vai o silêncio e
Para onde vão as palavras
Quando não digo o que eu sinto?


E quantas vezes mais
Irei ouvir a frase: 
-Depois falamos sobre isso?
Os Silêncios procuram um lugar
Que não conheço o destino 


Deve ser um lugar mágico
Um lugar protegido 
Onde segredos e verdades
Das nossas bocas (mesmo fechadas)
Continuam caindo
                              Caindo
                                           Caindo




segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O AMOR É UMA GRANDE FANTASIA



Em "O Amor é Uma Grande Fantasia", Elliot (Paul Mercurio) resolve passar alguns dias em uma especie de spa sexual chamado Ilha Éden para satisfazer suas fantasias mais secretas. Porém , o rapaz , por acaso fotografa o trabalho de contrabandistas de diamantes antes de embarcar para a viagem. 

A partir disso, bandidos e um casal de detetives (interpretados por Dan Aykroyd e pela divertidíssima Rosie O'donnel) seguem-no até a ilha. Onde eles esperam conseguir pegar o filme fotográfico. Enquanto isso, Elliot se apaixona por Lisa (Dana Delany), a administradora da ilha e também a personagem dominadora  a quem todos têm que prestar reverência e satisfazer seus desejos.


Nas cenas iniciais do filme O Amor é Uma Grande Fantasia, cujo titulo original é Exit To Eden, podemos imaginar que trata-se apenas de uma comédia desbocada destinada a adultos. Porém com a evolução da trama, entre diálogos sagazes e cenas eróticas e divertidas, percebe-se que o roteiro do filme é capaz de despertar importantes reflexões sobre relações humanas.  


Faz pensarmos nas ideias do filósofo Michel Foucault, em seu estudo sobre a evolução da história da sexualidadeno campo da sexualidade em termos de jogos de poder e de verdade. E debater o sexo em termos de uma codificação clínica que estabelece os parâmetros para o normal e o anormal no campo da sexualidade.


Aparecem, então, personagens que estão na ilha Eden, destinada aos praticantes de BDSM ( traduzida geralmente por: BD= Bondage e Disciplina; DS= Dominação e Submissão; SM= Sadomasoquismo). E a estas práticas somam-se algumas outras, tais como: fetichismo, inversão de papéis.
Podemos situar o BDSM dentro do campo das sexualidades dissidentes, este termo foi utilizado por Gayle Rubin (1989) para tratar das sexualidades que estavam à margem (fora do “círculo mágico”): sexualidades não-reprodutivas, homossexuais, fora do casamento, em lugares públicos, intergeracionais, pornográficas, sadomasoquista.

Contudo, refletir sobre práticas BDSM vai além, requer entender o prazer e o desejo deslocados da genitalidade e muitas vezes dos corpos, é construir e vivenciar jogos de poder, prazer e dor em contextos consensuais. É importante pontuar aqui que todas as práticas abordadas são vivenciadas por pessoas adultas em contextos consensuais, onde há negociação entre os participantes e são respeitados os limites de cada um.

Embora se remeta muito à dor quando se fala em BDSM, o que une as letras e dá sentido às práticas são as relações de poder. O que novamente remete a Foucault, que considera o SM (Sadomasoquismo) uma encenação de estruturas de poder, onde o corpo se coloca estrategicamente, se brinca com a autoridade e ser dominado ou dominar são posições fluidas.


E a inteligência do roteiro do filme está exatamente em presenciar o envolvimento afetivo entre dois participantes do BDSM, a dominadora e o submisso. Verificar como eles se comportam de maneiras diferentes frente esses jogos de poder. Sendo que a relutância da dominadora em aceitar que um sentimento maior (não importando como o chamam, pode ser amor, paixão, carinho) seja capaz de tornar aquela mulher dominadora e indiferente em um ser frágil e dependente.

É interessante a construção dessa contradição. Pois um individuo seguro de si e ciente de sua liberdade sexual como dominadora. Mas que numa especie de auto masoquismo, a personagem impõe severos bloqueios sentimentais quando percebe que esta se apaixonando pelo submisso. Entretanto, sua atitude é compreensível. Talvez por medo de realmente se ferir ela agiu dessa forma.

Creio que o SM tenha tantos adeptos exatamente por isso: A permissão da dor física, da violência psicológica, consentida e premeditada é o triunfo do sadomasoquismo sobre a dor da desilusão amorosa.

E o diretor do filme Garry Marshall, mesmo diretor de Uma Linda Mulher, conduziu muito bem a evolução de "O Amor é Uma Grande Fantasia”. E com diversão e erotismo, embalado por uma trilha sonora caprichada, nos emocionou ao final. No qual deixou bem claro sua mensagem: "Não importa a perversão sexual. O amor verdadeiro é que é a grande fantasia!"

TITULO: O Amor é Uma Grande Fantasia - Exit to Eden (1994)
DIRETOR: Garry Marshall
ELENCO: Dan Aykroyd, Rosie O'donnel, Paul Mercurio, Dana Delany